Ateliê de Calças

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Motivada a tornar o autoconhecimento acessível a todos para construir a paz e sustentar transformações Renata Mendes criou o ACTVEDA. Leva a prática do Yoga para meninas em privação de liberdade na Fundação CASA desde 2003 com seu projeto social Aparigraha e criou em 2015 o Instituto Mundo Aflora, que dá suporte a essas jovens em processo de reintegração, para além dos muros da reclusão. Renata é uma #MulherAteliê por compartilhar de valores que acreditamos; a crença no poder do indivíduo, a equidade e o colaborativismo para transformar a sociedade.

Como começou o Projeto Aparigraha?

Tudo isso começou quando eu ainda era uma menina, uma inquieta na vida, sempre em busca do propósito da existência. Eu praticava Yoga desde os 18 anos. Estava fazendo faculdade de administração e apareceu a oportunidade desse projeto voluntário para ensinar Yoga dentro da Fundação Casa (na época Febem), na unidade da Móoca, que era uma unidade modelo, com meninas que haviam cometido crimes mais graves.

Além do mais, eu era uma baita de uma feminista quando mais nova. Sempre achei um absurdo as desigualdades e privilégios que alguns homens tinham ao meu redor, inclusive dentro da minha família. Por que homem podia fazer algo ou ir a lugares que mulher não podia? Nunca entendi e engoli essa diferença. “Ah, não pode?” Eu vou lá e faço! Então eu sempre gostei de ir a lugares e fazer coisas que as pessoas não pensam que combinam. Eu sou um pouco do contra. Então quando surge “Vamos fazer yoga dentro de uma prisão?” é lá que eu vou estar!

E então eu cheguei lá com o pensamento de que estava indo ajudar meninas necessitadas, com todos os meus julgamentos, achando que encontraria mini criminosas e eu cheguei e encontrei meninas iguaizinhas a mim, com os mesmos problemas, as mesmas questões, que usavam o mesmo tipo de cabelo do que eu. Foi um tapa na cara. Qual era a única diferença, de fato? O contexto. As diferentes oportunidades que nos foram dadas para fazermos diferentes escolhas. Eram meninas de baixa renda, em sua maioria negras e pardas, que moravam na periferia.

Eu percebi, logo de cara, que se essas meninas, com todo histórico que carregam, conseguem fechar os olhos e encontrar um lugar de paz dentro delas, qualquer pessoa consegue. E então decidi que era esse tipo de impacto que eu queria ter. De usar o autoconhecimento para mudar a realidade das pessoas, porque se elas se conhecem e descobrem esse potencial que têm, as coisas podem se transformar positivamente.

Como nasceu o Instituto Mundo Aflora?

Este ano faz 15 anos que levo meu trabalho de Yoga para dentro da Fundação Casa. Desde que comecei sempre me senti orgulhosa do trabalho que fazia, mas comecei então a me questionar como eu poderia ajudar para quando elas saíssem não voltarem ao mesmo lugar.

Esse é o trabalho do Instituto Mundo Aflora. Um projeto que nasceu em 2015, que eu sempre desejei, mas demorei 12 anos para bancar este sonho.

Um dos fatos que presenciei que fez com que eu desejasse ainda mais estender minha ação para além dos muros da reclusão, para apoiá-las quando ganham a liberdade, foi que dava aula de Yoga para uma garota anos atrás e agora a filha dela quem está lá, cumprindo também pena socioeducativa.

Perceber que existe um ciclo, que essas meninas replicam suas referências, engravidam cedo e criam seus filhos nas mesmas condições que elas cresceram, fez com que eu desse ainda mais urgência no que eu estava fazendo.

Não tem força de vontade que exista no ser humano que vai transformar tanto! É óbvio que elas vão voltar e não é questão de caráter não, é uma questão estrutural. O ser humano replica os seus padrões. Por isso que transformação leva tempo e é um funil. É um processo que exige paciência de todos os lados da história, de compreender que de mil que pegamos pode ocorrer a transformação de dois.

O que mais me frustra são meninas que estão super focadas a se transformarem quando estão lá dentro, mas quando saem, por uma questão de contexto, acabam voltando para as drogas, para o crime ou morrendo. Já aconteceu uma vez e foi uma grande lição. Pude perceber que eu não estou lá para salvar ninguém, que não tenho esse “super-poder”, mas eu acho que posso criar um primeiro passo. Eu sou uma ferramenta de transformação para quem quer e consegue vencer o contexto em que está inserida.

Como atua o Instituto Mundo Aflora?

Acreditamos que um dos primeiros pilares para essa reintegração acontecer é gerar vínculo com essas meninas, pois se elas se identificam conosco, nos procuram quando saem. Além disso, estamos evoluindo em pesquisas mais concretas de quais são as reais necessidades delas quando deixam a reclusão. Como, por exemplo, maneiras de promover empregos para as meninas mais velhas. Muitas têm como sonho serem veterinárias, administradoras, médicas... E isso lhes parece um plano tão distante! Como podemos contribuir para que elas tenham sua própria geração de renda e assim construir um passo a passo, um planejamento para transformarem e construírem uma nova vida?

Fora que elas têm medo. Imaginem se ficarmos reclusas aqui nesta casa, durante um ano. Vamos morrer de medo de sair e andar aqui pela rua para o próximo quarteirão, obviamente. E elas têm que fazer isso sem suporte nenhum.

De Julho pra cá, seis meninas nos procuraram, desde um projeto de Grafite que fizemos lá, em Junho. O que elas querem é se sentirem acolhidas sem julgamentos, alguém que as incentive e lute junto. Já constatamos que essa mentoria é algo importante, alguém que seja como uma irmã/amiga mais velha que dê esse suporte e mantenha esse vínculo que estabelecemos.

Além disso, é preciso preparar essas meninas. Trabalhamos nisso enquanto elas ainda estão reclusas, levando repertório, conteúdo, cultura; mostrando que elas são aptas a fazerem mais do que elas nem sabiam que eram capazes. Têm umas que saem e colocam no Facebook que são designers de sobrancelha, cabeleireiras ou maquiadoras. Exibem orgulhosas o certificado do curso que fizeram lá. Olha que incrível o impacto que isso tem!

O intuito é despertar os talentos e a auto-estima, porque a grande maioria das meninas não se sentem capazes de fazerem nada, não têm perspectiva nenhuma sobre si mesmas. E isso é uma grande mentira. Enxergo nelas muito potencial. Não são mulheres bobinhas ou então extremamente perversas como muitos podem pensar. Na verdade, a grande maioria é fruto de uma carência afetiva grande, às vezes de uma infância que nunca foi vivenciada. Temos meninas com 17/19 anos que ainda brincam de boneca, porque nunca tinham feito isso antes, mas ao mesmo tempo são super espertas e articuladas. Muitas meninas estão ali por crimes mais elaborados como sequestro, por exemplo. Eu fico pensando em como podemos canalizar essa inteligência pra algo bom, sabe? O potencial de realização que isso tem.

Acontece que elas vêm de uma camada social que não tem oportunidade. Quem dá oportunidade é o crime, logo elas estão no crime. E é muito triste porque ninguém fala da história dessas meninas. O Mundo Aflora vem com esse papel também, de contar a historia delas. Por que a população carcerária feminina aumentou em 150% de 2009 à 2012 (de acordo com os últimos dados disponíveis) em penitenciárias e em centros de medida socioeducativa? O que está acontecendo? Mulher é estrutura de uma família, principalmente em caso de maior vulnerabilidade. E o que eu percebo nessas meninas é que elas são abandonadas pela família, então é mais difícil do que para que os meninos. Para os meninos é OK, super aceitável menino ser preso, menina não. E as meninas que estão lá muitas se envolveram em tráfico ou roubo por causa de namorado, pai ou irmão.

Como você percebe que elas se enxergam, entre elas, como mulheres?

Lá dentro tem muita menina homossexual. E aí vem outro problema em relação à diferença entre os gêneros, porque os meninos da Fundação Casa podem receber visita íntima, as meninas não. Onde elas aplicam a sexualidade delas? Muitas dizem que estão homossexuais, porque elas estão lá e encontram alguém que lhes dá carinho, em um dos momentos mais difíceis da vida. Em paralelo, a sexualidade ali florescendo. É uma condição de sobrevivência e troca de carinho. Muitas não sabem o que é o amor direito, então os sentimentos se confundem entre amizade, amor, carência, atração sexual...

Mas é interessante que as meninas se sentem mulheres e isso ressignifca muito o que é ser mulher. Ser mulher é gostar de passar rímel? Não necessariamente! Teve um bazar que fizemos em que teve uma menina que pediu que eu levasse “roupas de menino” e ela foi lá e desfilou com “roupa de menino”. Porque isso é ser mulher pra ela. É colocar uma calça jeans que não é justa com uma camisa polo bem cortada. Ser mulher pra ela é poder ser autêntica. É apropriar-se de si.

Eu não gosto da palavra empoderamento, porque essa palavra diz colocar poder em alguma coisa, e todo mundo tem poder. Então é, na verdade, um descobrimento ou redescobrimento para você se enxergar exatamente como é e ter coragem de exibir-se para o mundo. “Olha, é isso o que eu tenho, é isso que eu sou.” Se é de cabelo curto, longo, maquiagem, sem maquiagem, me vestindo “de mulher”, “de homem”, de rosa pink do cabelo ao pé, sendo mais magra ou gorda, não interessa.

E quando se fala de empoderamento feminino geralmente está ligado a você ser uma profissional de sucesso ou uma empreendedora. Quando isso é visto por outra pessoa soa inatingível, inalcançável. E é tão mais simples. Porque não é só o discurso “eu vou lá conquistar minha independência financeira, de trabalho, de realização no mundo...” talvez a realização no mundo seja ter filho e cuidar da sua casa e família! Temos que respeitar. É interessante permitirmos que o que é interessante pra cada um seja sustentado.

No que este trabalho enriquece em sua vida?

Ao mesmo tempo em que elas têm muita parceria e cuidado umas com as outras, elas têm muitos conflitos também. Então eu digo que eu aprendi muito mais com elas. O que eu sou hoje como mulher, professora e ser humano, eu devo muito isso a elas. Elas me deram um campo para trabalhar todas as minhas capacidades de adaptação na vida, trabalhando com imprevistos o tempo todo e mesmo assim conseguindo realizar o que eu estava me propondo a fazer. E é engraçado que elas não têm muito filtro pra perguntar, isso o que geralmente temos, de ficar segurando as coisas mais educadamente - elas vão lá e perguntam na cara. Essa verdade delas eu sinto muita falta no meu circulo social, onde as pessoas, por vezes, sentem e não se expressam. Então elas foram mostrando o que eu queria também quanto aos meus valores e vínculos.