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#ELASATELIÊ > Camila Achutti

Camila Achutti é formada em Ciência da Computação pela USP e também mestranda pela mesma instituição. Estagiou no Google na Califórnia e quando voltou ao Brasil decidiu empreender para fazer o que ama: mostrar o poder de transformação da tecnologia e do empreendedorismo.

Com apenas 26 anos, Camila é sócia-fundadora da Ponte21, uma consultoria de inovação e tecnologia que promove a conexão da tecnologia com as pessoas, e da plataforma de educação em tecnologia Mastertech. Além de todos os seus feitos, Camila nos inspira por abrir portas a outras mulheres, e ser uma das líderes do movimento por igualdade de gêneros no mercado de TI. Em março de 2010, Camila colocou no ar o Mulheres na Computação que, mais do que discutir assuntos relacionados à tecnologia, se tornou uma comunidade das mulheres que são minoria no mercado da programação.

Como despertou esse amor por inovar e pela tecnologia? Você foi estimulada desde sempre ou você deve isso à sua personalidade?

Eu acho que é uma união das duas coisas. É, eu não posso negar que eu sempre fui curiosa, mas acho que uma curiosa sem método, e quando você vai fazer computação, programação, você adquire um método. Então você consegue transformar a sua curiosidade em produto, em projeto, em coisas... Então acho que tem um pouco de inclinação, mas dentro de casa a gente sempre foi estimulado a estudar, a procurar algo, um futuro. Então acho que juntou a fome com a vontade de comer, sabe? Eu sou curiosa, mas eu tive uma criação que me estimulou, sem muitas barreiras.

Conta um pouco como atuam as suas empresas: a Ponte 21 e a Mastertech?

A Ponte 21 nasceu da necessidade de fazer a tecnologia ser parceira do negócio. Eu e meu sócio, quando voltamos para o Brasil, tivemos que entender como a tecnologia funcionava aqui no país. Nós e as pessoas ainda a associávamos como uma atividade meramente técnica, onde alguém era pago para digitar um monte de letrinhas, e essa pessoa não era vista como um parceiro de negócios, como alguém que fosse um braço direito, sabe? Era diferente, porque todo mundo tinha um médico da família, um advogado da família, mas ninguém que entendesse de tecnologia, que pudesse ajudar ele a passar pela transformação digital, por exemplo. Então a gente criou a ponte para ser esse parceiro de negócios, e principalmente da grande empresa. E acabou dando certo, logo no primeiro ano nós saímos de 2 (eu e meu sócio) para 18 funcionários, e começamos a trabalhar com grandes empresas, e aí a coisa andou. Mas eu acho que lá no fundo, no fundo, nós sempre soubemos que queríamos trabalhar com educação. E aí quando nos vimos com a oportunidade de fazer acontecer a escola, criamos o Mastertech. Era um projeto piloto da Ponte 21 para ver o que ia dar, e então na segunda semana saímos em uma grande TV como o “primeiro bootcamp do país”. Tínhamos realizado o nosso grande sonho que era ter uma escola, e assim mudar a maneira como tecnologia era vista no país através da educação.

Como você lida com a pressão de representar o gênero feminino no universo da computação, onde ainda somos grande minoria?

Eu acho que ser mulher, o simples fato de existir como mulher, já é um motivo pelo qual nos pressionamos, né? Existe o mito da supermulher, da Mulher Maravilha, de que temos que ser boa em tudo; boa esposa, boa profissional, boa mãe, boa filha, e ser perfeita, né? Esse estereótipo da mulher perfeita, fisicamente perfeita e perfeita em vários outros âmbitos. Então acho que de alguma maneira já vamos crescendo sendo treinadas para lidar com pressão. Essa pressão já existe, mas quando você se coloca em posição de destaque, você vai tendo que criar musculatura para conseguir ocupar esse lugar. Porque de fato as pedras são atacadas primeiro em você, sabe? Acho que eu vim treinando nesses últimos anos a ganhar musculatura, a ser uma pessoa que, de alguma maneira, inspirasse as meninas a poderem ser elas mesmas. Então eu demorei muito tempo para ter a unha cumprida e passar batom vermelho, porque de alguma maneira quando você entra nesse mercado que é masculinizado, te cobram um estereótipo, e você mesma se cobra.

Qual a sua contribuição para o gênero? Como envolve as mulheres na tecnologia?

Hoje no Mastertech temos 61% das alunas meninas, isso é melhor do que qualquer faculdade dos Estados Unidos, que qualquer outro centro educacional. E aí muita gente olha e fala: “Ai, que fofa, é porque você fala sobre isso.” Mas muita gente nem sabe que o Mastertech é de uma mulher, fora que tomamos muito cuidado com tudo que a gente escreve, com as fotos, com os títulos de curso. A gente sempre conta uma história: tinha um curso que se chamava “Introdução à Programação”, um nome pesado. Aí um professor em Berkeley, chamado Dan Garcia, trocou o título da matéria de introdução de computação dele e colocou: “As Belezas e As Maravilhas da Tecnologia”, e de alguma maneira conseguiu suavizar um pouco o estereótipo do que é programação. E aí eu falei assim: “Vamos mudar então o nome do curso, vamos colocar ‘Programação Para Não Programadores’, e escrever: ‘você que é veterinário, você que é do RH, você que é dançarino...’, e quebrar um monte de estereótipos logo na primeira linha?” E aí crescemos para quase 70% de inscrições femininas. Então acho que querer ser diverso é uma decisão. A gente vai acertar e errar, mas o Mastertech com certeza é um reflexo dessa nova economia e de como a gente acredita que seja um futuro desejável para a tecnologia, que é diversa, que é resolver esses problemas que não estão sendo resolvidos, que é dar esse superpoder na mão de todo mundo independente de etnia, gênero, independente de qualquer coisa.

Como uma das líderes do movimento por igualdade de gênero no mercado de T.I., você tem uma visão otimista para o futuro?

Eu tenho uma visão muito otimista para o futuro porque eu acho que vamos começar a perceber que a liderança no século XXI vai ter que ser muito mais empática, colaborativa, vai ter que mudar. Não vamos, na minha visão, conseguir sustentar a sociedade se continuarmos fazendo tudo do mesmo jeito. Estamos saindo de uma era que era linear, que era local, e que era mecânica para criar um mundo que é exponencial, orgânico, global. Eu não vou poder liderar da mesma forma, e acho que esse novo modelo de liderança, inclusive, tem muitos vieses femininos. Eu acho que a mulher cresceu fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo, cresceu tendo empatia, colaborando, vivendo em sociedade e sendo responsável por famílias. Então eu acho que tem muitas características dessa nova liderança que são femininas, que são do estereótipo feminino, né? Então eu acho que temos um futuro incrível aí pela frente, que pode não ser muito rápido, mas que virá com certeza.

Qual é a característica feminina que você acha que pode mudar o mundo?

Eu acho que a mulher toma decisões com o coração e na minha opinião isso muda o mundo. Por muito tempo ouvimos falar que ser emocional no mercado de trabalho era ruim, que o correto era ser racional; só que em um modelo mental como o de hoje, onde não temos mais certeza de nada, para sermos tolerantes à essa incerteza, vamos ter que usar o coração. E hoje eu acho que as pessoas estão começando a perceber isso. E a mulher já faz isso há muitos anos, ela toma decisões baseadas em sensações e insights, e por muito tempo isso foi considerado ruim, e hoje é necessário que você tenha essa tolerância à incerteza. Então eu acho que a principal característica da mulher que vai mudar o mundo é pensar com o coração.