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#ELASATELIÊ > Ale Kertzer

Alessandra Kertzer é personal stylist e divide seu tempo entre SP e NY. Formada na Parsons Paris, Alê fez carreira como merchandiser/buyer para marcas incluindo Alexander Wang e Miu Miu. Hoje, à frente de sua própria empresa de personal styling, AK Stylist Inc, cuida do estilo e shopping de clientes locais e turistas brasileiras em NY. Alê é uma inspiração por seguir com alegria e profissionalismo a carreira que escolheu (desde sempre), ajudando outras mulheres a projetarem a sua melhor e mais confiante versão.

Qual a principal diferença no cenário da moda no Brasil e NYC?

A principal diferença seria o timing das tendências e coleções. Sinto que aqui no Brasil nós estamos sempre reproduzindo o que vemos lá fora, especificamente NYC, Milão, as capitais da moda... É sempre um efeito secundário por aqui. É um ciclo onde acabamos sempre ficando um passo pra trás. Não que isso seja ruim, mas de fato NYC dita as tendências e o Brasil copia, adaptando de acordo com o que faz sentido para o nosso clima, para o nosso perfil brasileiro, fazendo uma reprodução ao nosso estilo.

No que consiste seu trabalho como personal stylist?

Meu trabalho foca nas 3 etapas do full makeover. A 1ª é o closet cleanse, onde editamos o armário da cliente, selecionando as peças que irão ficar, as que devíamos doar ou vender, e o que precisamos mandar reformar. Depois da limpa do armário partimos para a 2ª etapa, o personal shopping, onde eu faço uma pré-seleção de todos os itens que a cliente deveria comprar, de acordo com o perfil de necessidades e orçamento. Feito isso partimos para o digital lookbook, onde tiro fotos de todas as peças do guarda-roupa da cliente, os já existentes e os novos, e crio esse lookbook digital, de acordo com o lifestyle da cliente, se ela trabalha, se costuma sair à noite, se viaja muito a praia. Tudo é desenvolvido pensando no lifestyle da cliente. E muito mais do que só moda, compras e tendências, o trabalho da personal stylist vai muitas vezes para o lado psicológico. Um estudo psicológico daquela pessoa, para entender o que ela busca, o que ela está tentando falar com a imagem dela, e qual imagem tem a ver, de fato, com a personalidade e o lifestyle da cliente. Busco fazer um estudo para buscar as melhores opções. Tem que fazer sentido com as características únicas daquela cliente.

Como é a sua relação com a moda? Conte sua trajetória.

Essa relação começou muito cedo, logo aos 15 anos onde todo ano eu comecei a fazer um curso em NYC e um estágio, pegava as minhas férias e ia trabalhar e estudar. Eu decidi fazer a faculdade da Parsons Paris em Design Management, com foco em moda e quando me formei eu recebi uma proposta para trabalhar no Alexander Wang em NY, com a equipe de merchandising de produto, com o time de design desenvolvendo as coleções de acordo com o que era comercial, o que vende e estava indo bem nas lojas. Baseava-se em estudo de números e tendências e estilo, junção do comercial com o lado criativo. Sai do Alexander Wang para trabalhar na MiuMiu, na equipe de merchandising e buying, na compra de sapatos para os EUA. Foi um trabalho muito interessante, onde consegui estudar e analisar bastante o perfil de clientes e de compras, dependendo da áreas dos EUA. Isso mudava demais, o tipo de salto, os tamanhos, a numeração... Era um estudo mesmo, que aflorou ainda mais a vontade que eu tinha em trabalhar com pessoas, de estudar pessoas. Então saindo da MiuMiu eu resolvi abrir meu próprio negócio de personal styling, que antes era só um hobby. Optei em profissionalizar essa paixão.

Hoje, trabalhando como personal stylist, eu sinto que tudo o que aprendi nessas empresas, como merchandiser e buyer, eu ainda aplico no que eu faço hoje. Me deu base para entender como uma mulher compra, o que ela gosta de comprar, dependendo se é brasileira, americana ou europeia, muda muito o perfil. Além do mais, me ajudou a ter um olho crítico para tendências e como aplicar tendências de passarela no dia-a-dia.

Sobre o poder da moda de expressar a personalidade de cada indivíduo. Como enxerga essa relação forte entre moda e mulher? Como acha que a moda contribui para o "ser mulher"?

Acho que muitas vezes as pessoas enxergam moda, roupas e styling como algo mais superficial e secundário, mas eu acho que tem uma extrema importância. Porque se você para pra pensar a primeira impressão que alguém vai ter de uma pessoa, muitas vezes é derivado da imagem, o que ela está usando e como, o que é que o look dela diz sobre ela. O maior poder da moda é ser usada para criar a sua própria realidade e imagem. Usar a moda para desenvolver um lado da sua personalidade. É uma forma de expressão muito forte e poderosa na minha opinião, e sabendo usar a nosso favor pode ter uma recompensa seja na auto-estima, ou abrindo portas profissionais ou em relacionamentos. Eu acho que ajuda e esse é o grande poder. Sentir que sua imagem está forte, de acordo com o que quer projetar.

Quais foram os maiores desafios que encontrou no mercado internacional fashion?

Acho que um dos maiores desafios no mercado internacional fashion tanto para uma marca, como para uma pessoa que faz styling, como eu, é esse lado do criativo com o comercial. Às vezes o conceitual, o que é mais interessante, criativo e único, acaba sendo não tão comercial, porque a realidade do corpo de uma modelo para as fotos de um lookbook ou uma campanha, é muito diferente de quando você está trabalhando com mulheres reais, com corpos diferentes, reais, tamanho, altura, peso, enfim, então eu vejo isso como um desafio. Isso sempre foi um desafio pra mim, tanto quando eu trabalhava em marcas, como para hoje em dia, que eu trabalho com pessoas reais e faço essa ponte entre o criativo e o comercial.

Quais as diferenças que você percebe nas digitais influencers aqui do Brasil e nos EUA?

Eu acho que aqui no Brasil já se formaram umas panelinhas bem fortes de blogueiras segmentadas na classe A,B,C e eu acho que aqui no Brasil, trabalha-se muito mais essas ações e esses eventos com blogueiras do que as marcas lá fora. Acho que aqui elas têm muito mais exposição e trabalham muito mais com marcas do que as de fora, e acabou ficando uma coisa um pouco mais saturada aqui, onde nós já sabemos quem são as top blogueiras. Lá fora também eu vejo mais diversidade de estilos, de personalidades, enfim.... Eu não acho que está tão saturado. Mas, de fato, eu acho que as blogueiras tomaram um espaço muito importante no mundo da moda, porque realmente elas são muito influentes e estão ditando tendências e gerando muitas vendas, tanto que você vê que hoje elas ocupam, no mundo todo, a fila A dos principais desfiles, e são tratadas muito bem. Em ambos os lugares elas seguem com muita força.